Você recebe uma mensagem:
“Precisamos conversar!”
A conversa ainda não aconteceu.
Mas, em poucos minutos, sua cabeça já produziu algumas versões. Alguém está zangado. O relacionamento pode estar terminando. Você fez alguma coisa errada. Talvez tenha acontecido algo grave.
E, enquanto nada acontece do lado de fora, alguma coisa já aconteceu dentro.
Nós temos uma tendência curiosa diante do futuro: inventá-lo antes que ele chegue.
Talvez porque exista uma promessa silenciosa por trás disso:
se eu imaginar todas as possibilidades, talvez consiga me proteger daquilo que vier.

O futuro tem uma característica que nos incomoda
O futuro tem uma característica simples, mas difícil de suportar:
ele ainda não existe.
Podemos fazer planos. Estabelecer objetivos. Calcular riscos. Guardar dinheiro. Estudar. Fazer uma reserva. Preparar uma viagem. Organizar uma mudança.
Tudo isso faz parte de uma relação saudável com aquilo que ainda não aconteceu.
O problema começa quando planejar deixa de ser uma forma de preparação e passa a ser uma tentativa de eliminar a incerteza.
Porque existe uma diferença importante entre preparar-se para o futuro e querer garantir que ele aconteça exatamente como imaginamos.
A primeira coisa é possível.
A segunda, não.
Pesquisas contemporâneas sobre ansiedade têm encontrado uma associação consistente entre a dificuldade de lidar com a incerteza, a preocupação e sintomas ansiosos. Uma meta-análise publicada em 2026, reunindo 115 estudos e mais de 28 mil participantes, encontrou associações robustas entre intolerância à incerteza, preocupação e ansiedade.
Isso não significa que toda ansiedade tenha uma única causa.
Significa apenas que a maneira como lidamos com aquilo que não podemos prever parece ter importância.
E talvez seja justamente aí que o problema comece.

Pensar no futuro pode ser uma forma de tentar dominá-lo
Pensar no futuro não é, por si só, um problema.
Pensar pode ajudar.
Pode nos preparar, organizar, proteger e permitir escolhas melhores.
Mas existe um momento em que pensar deixa de produzir preparação e começa a produzir repetição.
Pensamos novamente.
E novamente.
E mais uma vez.
Não porque uma nova informação tenha surgido, mas porque ainda não conseguimos alcançar a certeza que estamos procurando.
É um paradoxo.
Quanto menos conseguimos controlar o futuro, mais podemos sentir vontade de pensar sobre ele.
Tentamos resolver mentalmente aquilo que, na realidade, ainda não pode ser resolvido.
O futuro continua desconhecido.
Mas nossa mente insiste em tratá-lo como um problema que precisa ser solucionado agora.

Mas o controle nem sempre é o problema
É importante fazer uma distinção.
Controle não é necessariamente algo ruim.
Planejar uma viagem é uma forma de organização.
Fazer uma reserva financeira é uma forma de cuidado.
Estudar para uma prova é preparação.
Procurar um médico diante de um sintoma é responsabilidade.
O problema não está em tentar cuidar do que está ao nosso alcance.
O problema aparece quando a possibilidade precisa se transformar em certeza para que consigamos seguir em frente.
É aí que talvez devêssemos fazer uma pergunta:
Quando o controle deixa de ser cuidado e passa a ser uma tentativa de eliminar a incerteza?
Porque algumas coisas podem ser organizadas.
Outras precisam ser vividas.
E existe uma diferença enorme entre essas duas situações.

O que estamos tentando controlar, afinal?
Às vezes pensamos que estamos tentando controlar um acontecimento.
Mas talvez estejamos tentando controlar aquilo que imaginamos sentir quando esse acontecimento ocorrer.
É diferente.
Talvez não seja apenas o medo de perder o emprego.
Talvez seja o medo de descobrir quem somos quando perdemos aquilo que nos dava segurança.
Talvez não seja apenas o medo de uma separação.
Talvez seja o medo da solidão, da rejeição ou da sensação de não sermos suficientes para alguém.
Talvez não seja apenas o medo de fracassar.
Talvez seja o que o fracasso diria sobre nós.
E então a pergunta muda.
Deixamos de perguntar:
“O que vai acontecer?”
E começamos a perguntar:
“O que vai acontecer comigo se isso acontecer?”
Essa segunda pergunta é muito mais difícil.
Porque ela nos aproxima de nós mesmos.

Freud e a ansiedade diante do que ainda não aconteceu
Em Inibições, Sintomas e Ansiedade, de 1926, Freud relaciona a ansiedade à expectativa e ao perigo.
A ansiedade aparece ligada à possibilidade de algo ameaçador.
Há, portanto, uma dimensão de antecipação.
Algo ainda não aconteceu, mas pode acontecer.
E a pessoa reage à possibilidade.
Isso ajuda a compreender por que a ansiedade não precisa ser vista simplesmente como uma inimiga.
Em alguma medida, ela também pode funcionar como um sinal.
Um sinal de que existe algo percebido como ameaça, perda, separação, perigo ou desamparo.
O problema pode surgir na maneira como respondemos a esse sinal.
Não sei.
Imagino.
Temo.
Tento controlar.
Percebo que não consigo.
Imagino ainda mais.
E o ciclo recomeça.

Talvez o medo não seja apenas do que pode acontecer
Existe uma pergunta que considero particularmente importante:
Será que estamos tentando controlar o futuro ou tentando impedir que o futuro revele alguma coisa sobre nós?
Porque determinados acontecimentos podem tocar lugares muito profundos.
Um fracasso pode colocar em questão a nossa necessidade de reconhecimento.
Uma rejeição pode tocar antigas experiências de abandono.
Uma mudança pode ameaçar uma identidade que construímos durante anos.
Uma perda pode nos obrigar a descobrir como continuar sem aquilo que imaginávamos indispensável.
Talvez, em alguns momentos, a pergunta não seja apenas:
“E se der errado?”
Mas:
“Quem serei eu se der errado?”
Essa pergunta muda tudo.

A ilusão de que pensar evita o sofrimento
Existe uma espécie de ilusão na tentativa de antecipar todas as possibilidades:
a ideia de que, se pensarmos o suficiente, sofreremos menos.
Mas não podemos ensaiar todas as perdas.
Não podemos prever todas as rejeições.
Não podemos calcular todas as mudanças.
Não podemos experimentar antecipadamente todas as versões possíveis de nós mesmos.
Em algum momento, a vida exige presença.
E talvez seja aí que o excesso de controle produza um efeito curioso:
a pessoa tenta controlar o amanhã e acaba perdendo parte do hoje.
Enquanto imagina aquilo que pode acontecer, deixa de perceber aquilo que está acontecendo.
Enquanto tenta evitar uma dor futura, pode deixar de viver uma experiência presente.
Enquanto procura uma garantia, pode perder contato com aquilo que já possui.

Não é preciso transformar a incerteza em inimiga
Há uma distinção importante aqui.
Sentir ansiedade diante de uma situação futura faz parte da experiência humana.
Isso não significa, por si só, que exista um transtorno de ansiedade.
A Organização Mundial da Saúde diferencia a ansiedade comum dos transtornos de ansiedade, que envolvem medo ou preocupação intensos ou excessivos, frequentemente difíceis de controlar, persistentes e capazes de produzir sofrimento ou prejuízo significativo na vida cotidiana.
Por isso, este texto não pretende dizer que basta “parar de se preocupar”.
Não é tão simples.
Quando a ansiedade se torna intensa, persistente ou começa a interferir no trabalho, nos relacionamentos, no sono ou na vida cotidiana, buscar avaliação e acompanhamento profissional é importante.
Aqui estamos falando de outra coisa:
da nossa relação cotidiana com a necessidade de ter garantias sobre aquilo que ainda não aconteceu.

O que podemos controlar?
Talvez uma das formas mais honestas de lidar com o futuro seja reconhecer a diferença entre aquilo que está sob nossa responsabilidade e aquilo que não está.
Podemos escolher.
Podemos nos preparar.
Podemos estabelecer limites.
Podemos pedir ajuda.
Podemos mudar de direção.
Podemos cuidar daquilo que depende de nós.
Mas não podemos controlar completamente os sentimentos das outras pessoas.
Não podemos garantir que uma relação jamais terminará.
Não podemos impedir todas as perdas.
Não podemos conhecer antecipadamente todas as consequências de uma escolha.
Não podemos transformar o futuro em algo completamente previsível.
E talvez aceitar isso não seja desistir do controle.
Talvez seja reconhecer os limites do controle.

Talvez a questão não seja o futuro
O futuro continuará sendo aquilo que é:
uma parte da vida que ainda não aconteceu.
Podemos planejá-lo.
Podemos desejá-lo.
Podemos trabalhar por ele.
Mas não podemos possuí-lo antecipadamente.
Talvez amadurecer tenha alguma relação com isso.
Planejar sem garantias.
Cuidar sem possuir.
Escolher sem conhecer todas as consequências.
Amar sabendo que o outro é livre.
Caminhar mesmo quando algumas perguntas continuam sem resposta.
Talvez não se trate de controlar a vida.
Talvez se trate de confiar um pouco mais na nossa capacidade de atravessá-la.

E se a pergunta for outra?
Talvez tenhamos passado tempo demais perguntando:
“Como faço para garantir que tudo dará certo?”
E talvez exista uma pergunta mais difícil:
“O que existe em mim que precisa ter tanta certeza para conseguir seguir em frente?”
Existe ainda outra.
Mais incômoda.
Será que eu quero controlar o futuro — ou quero evitar descobrir quem sou diante daquilo que não posso controlar?
Algumas perguntas não servem para serem respondidas imediatamente.
Servem para abrir uma conversa.
Talvez a maturidade não esteja em descobrir como fazer a vida obedecer aos nossos planos.
Talvez esteja em descobrir o que fazemos quando ela não obedece.
A vida continua sendo uma questão.
E algumas questões precisam ser vividas antes de serem respondidas.
A VIDA EM QUESTÃO
Não precisamos ter certeza de que tudo dará certo. Precisamos descobrir se confiamos em nossa capacidade de atravessar aquilo que vier.

Professor | Psicanalista | Filósofo
Mestre em Psicanálise Clínica e Saúde mental – WIP
Doutorando em Fisiologia da Ansiedade – WIP
Especializado no controle do pânico, depressão e ansiedade
Registro CNP – 05/2896 (Conselho Nacional de Psicanálise)
Registro CNT – 21.085/RJ (Conselho Nacional de Terapia)
Telefone e WhatsApp (22) 99276-2452
